O Pedro Leal e a Hadassah dizem nos comentários ao anterior post que as minhas opiniões de nada valem perante a soberania de Deus.
Obviamente, têm toda a razão.
Contudo, seria conveniente pensarmos também que Deus nos deu a cabeça não só para usar chapéu mas também para usar a razão (ver Fides et Ratio).
Mandam os bons princípios da razão e da humildade (e do trabalho intelectual) que perante um texto que contém elementos que nos parecem contraditórios, que se sigam duas regras fundamentais.
A título principal, descobrir um sentido ao texto que seja compatível com os enunciados contraditórios (e a partir do momento em que tal sentido seja possível, a aparente contraditoriedade intrínseca do texto deixa implicitamente de existir).
A título subsidiário, sempre que tal sentido seja impossível de conseguir, descobrir prioridades no texto ou no sistema do qual o texto faz parte e valorizar o elemento assim considerado prioritário relativizando o outro enquanto elemento não fundamental para a lógica do sistema.
Penso que não é preciso sequer recorrer a esta última linha de argumentação para compreender o que se deve entender por "eterno" na definição que a Bíblia e o Catecismo da Igreja Católica dão ao Inferno.
Se, no fim dos tempos, Deus vence o Diabo (e este elemento parece-me fundamental na Fé cristã) o entendimento de "eterno" terá que obedecer a duas restrições. Primeiro, uma restrição lógica: "eterno" é um conceito temporal, isto é, supõe a existência de "tempo", logo, no fim dos tempos, a Bíblia nada nos diz sobre a existência do Inferno. Segundo, uma restrição decorrente da vitória final de Deus sobre o Diabo: o Mal será absolutamente extinto (e, logicamente, também o seu subproduto "Inferno").
Assim, mesmo aqueles que, após a morte física desejem continuar apartados de Deus, assim estarão enquanto assim o quiserem. Desse ponto de vista o Inferno será eterno. Estará sempre à disposição dos que desejarem continuar a sua separação de Deus.
Mas não me parece que tal "lugar" continue "disponível" após a vitória final de Deus sobre o Diabo no fim dos tempos.
Quanto a mim, devo admitir que me causa mais confusão a ideia do Inferno que a ideia do Purgatório. Não pelo facto de o Inferno se tratar de um lugar de "fogo" na expressão bíblica, mas, sobretudo por se tratar de um lugar de "fogo eterno". Ou, como diz o Catecismo da Igreja Católica, o inferno consiste "na separação eterna de Deus". Sublinho de novo o "eterno".
Um Deus que é amor é incompatível com o conceito de separação eterna. O Diabo é que é o Separador quase-eterno (pois no final dos tempos será derrotado por Deus).
Prefiro o Purgatório, o lugar que nas palavras de São Josémaria, serve para "limpar os defeitos". O único lugar onde a presença de Deus é possível.
Trata-se de uma festividade de todos aqueles que gozam já da visão de Deus. "A santidade consiste em viver tal como nosso Pai dos céus dispôs que vivêssemos. É difícil? Sim, o ideal é muito elevado. Mas, por outro lado, é fácil: está ao alcance da mão."
"O fim do Opus Dei, repito uma vez mais, é a santidade de cada um dos seus sócios, homens e mulheres, que continuam no lugar que ocupavam no mundo. Se alguém não vem ao Opus Dei para ser santo, apesar de todos os pesares - quer dizer, apesar das misérias próprias, dos erros pessoais - ir-se-á embora imediatamente. Penso que a santidade atrai a santidade, e peço a Deus que no Opus Dei nunca falte essa convicção profunda, esta vida de fé. Como vê, não confiamos exclusivamente em garantias humanas ou jurídicas. As obras que Deus inspira movem-se ao ritmo da graça. A minha única receita é esta: ser santos, querer ser santos, com santidade pessoal."
São Josemaría Escrivá, "O Opus Dei: uma instituição que promove a busca da santidade no mundo"
"Demonstraria pouca maturidade aquele que, na presença de defeitos e misérias que encontrasse em alguma pessoa pertencente à Igreja - por mais alto que estivesse colocada em virtude da sua função -, sentisse diminuir a sua fé na Igreja e em Cristo. A Igreja não é governada por Pedro, João ou Paulo; é governada pelo Espírito Santo e o Senhor prometeu que permanecerá a seu lado todos os dias, até à consumação dos séculos.
(...) o que se abeira dos Sacramentos, recebe-os certamente do ministro da Igreja, não enquanto é tal pessoa, mas enquanto ministro da Igreja. Por isso, enquanto a Igreja lhe permitir exercer o seu ministério., o que receber das suas mãos o Sacramento, não participa do pecado do ministro indigno, mas comunica com a Igreja, que o tem por ministro . Quando o Senhor permitir que a fraqueza humana apareça, a nossa reacção há-de ser a mesma que teríamos se víssemos a nossa mãe doente ou tratada com frieza. amá-la mais, ter para com ela mais manifestações externas e internas de carinho.
Se amamos a Igreja, nunca aparecerá em nós o interesse mórbido de pôr à mostra, como culpa da Mãe, as misérias de alguns dos seus filhos. A Igreja, Esposa de Cristo, não tem por que entoar nenhum mea culpa. Nós sim: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa! Este é o verdadeiro meaculpismo, o pessoal, e não o que ataca a Igreja, apontando e exagerando os defeitos humanos, que, na Mãe Santa, são uma consequência da acção n'Ela exercida pelos homens. Acção que, aliás, só vai até onde os homens podem, porque nunca chegarão a destruir - nem sequer a tocar - aquilo a que chamávamos a santidade original e constitutiva da Igreja."
São Josemaría Escrivá, "Amar a Igreja" (Lealdade à Igreja, Ponto 7)
Faz hoje este blogue três anos. Faz também quatrocentos e noventa e dois anos que Martinho Lutero fixou na porta da Catedral de Wittenberg as noventa e cinco teses. Em jeito de comemoração, retomo a questão das indulgências, tema de forma alguma ultrapassado, já que no recente ano do Jubileu, por exemplo, ouve indulgências plenárias para quem entrasse por uma determinada porta. A imagem em baixo, tirada da net, é apenas uma entre muitas possíveis. E coloca a questão de sempre: autoridade. De facto, ficamos com duas hipóteses. Ou a promessa do Bispo de Coimbra se cumpriu, e quem recitou “devotamente a prece” pelo “Chefe Salazar”poupou cinquenta dias de purgatório – o que torna Deus aliado formal de Salazar. Ou o bispo enganou quem recitou “devotamente a prece” pelo “Chefe Salazar” e não houve qualquer alteração no pós-morte – o que coloca em causa a credibilidade do bispo. Pessoalmente, escolho segunda hipótese, pelo simples razão que a autoridade que reconheço, a Bíblia, não faz qualquer referência, ou a menor sugestão sequer, ao purgatório. E os camaradas e leitores do Trento o que dizem? O Bispo de Coimbra falou com a autoridade de Deus ou dos homens?
A estupidez da Igreja Católica actual e portuguesa que dá corda ao Saramago, à venda do seu livro e à venda da Bíblia.
A sagacidade da Igreja Católica de todos os tempos que compreendeu que a Bíblia é um livro que pode ser perigoso, pois é simultâneamente histórico e eterno, uma Revelação de Deus e não um manual de instruções de um aparelho electrodoméstico, uma receita culinária ou um auto de notícia.
O melhor texto até agora escrito sobre o assunto li-o ontem pela pena do Daniel Oliveira no Expresso.
O problema do messianismo de Barack Obama (só um messias é consagrado na base de promessas e intenções) é ser falso. O verdadeiro Messias já veio, e a vaga está, portanto, preenchida. A história dos judeus documenta bem as confusões que, ao longo do tempo, os falsos messias têm arranjado.
Só para recordar que, depois de amanhã, actuará em Lisboa na Aula Magna, num concerto de promoção do seu último CD, aquele que é capaz de ser um dos melhores grupos pop da actualidade. Aqui fica uma canção desse CD:
"Quanto a vós, servos, obedecei a vosso senhor segundo a carne com temor e tremor, na sinceridade do vosso coração, como a Cristo, não servindo à vista, como para agradar a homens, mas como servos de Cristo, fazendo, de coração, a vontade de Deus; servindo de boa vontade, como ao Senhor e não como a homens, certos de que cada um, se fizer alguma coisa boa, receberá isso outra vez do Senhor, quer seja servo, quer livre. E vós, senhores, de igual modo procedei para com eles, deixando as ameaças, sabendo que o Senhor, tanto deles como vosso, está nos céus e que para com ele não há acepção de pessoas."
“No plano da militância política concreta, há que ter presente que o carácter contingente de algumas escolhas em matéria social, o facto de muitas vezes serem moralmente possíveis diversas estratégias para realizar ou garantir um mesmo valor substancial de fundo, a possibilidade de interpretar de maneira diferente alguns princípios basilares da teoria política, bem como a complexidade técnica de grande parte dos problemas políticos explicam o facto de geralmente poder dar-se uma pluralidade de partidos dentro dos quais os católicos podem escolher a sua militância para exercer - sobretudo através da representação parlamentar - o seu direito-dever na construção da vida civil do seu País”
Sem violência agressiva, mas resistindo à barbárie. Nesta notícia de hoje podem ver-se militantes católicos do "Secours Catholique" em accão de defesa e apoio aos emigrantes em Calais, França.
"Peço e espero que quem me assista me ajude a manter até ao fim uma tripla confiança: a) confiança em que os meus cuidadores, em cujas mãos me entrego, me proporcionem os cuidados apropriados, nem exagerados nem insuficientes, incluindo a sedação necessária; b) confiança em que as pessoas mais próximas me acompanhem humana e espiritualmente; c) confiança no mistério último que dá sentido à vida, em cujas mãos encomendo o meu espírito na viagem de regresso à Vida da vida."
(via palombella rossa, o blogue do cabeça de lista do Bloco de Esquerda para as próximas eleições legislativas pelo círculo de Coimbra)
Uma constatação para os cristãos politicamente mais a leste ou entretidos com ideologias. José Sócrates, e os à sua esquerda, defendem o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a adopção de crianças por homossexuais. Manuela Ferreira Leite, e os à sua direita, defendem o casamento tal como foi instituído por Deus (Génesis 2:24).